10 de maio de 2018 às 08:33

Cientista David Goodall morre aos 104 após cometer suicídio assistido na Suíça

O cientista inglês  David Goodall, 104, que fez campanha pela legalização da morte assistida na Austrália, onde viveu grande parte da vida, morreu nesta quinta-feira (10) aos 104 anos na clínica Life Circle, na Suíça, depois de administrar uma droga letal

O cientista inglês  David Goodall, 104, que fez campanha pela legalização da morte assistida na Austrália, onde viveu grande parte da vida, morreu nesta quinta-feira (10) aos 104 anos na clínica Life Circle, na Suíça, depois de administrar uma droga letal sob a orientação de médicos.

Goodall atraiu mais de US$ 20 mil em doações do público para ajudar a financiar sua viagem para a Europa a partir de Perth, na Austrália, no início deste mês.

O cientista disse que tomou a decisão de morrer após sua vida deixar de ser agradável há "cinco ou dez anos atrás", em parte por causa de sua mobilidade e visão deficientes. Ele estava lúcido e não tinha nenhuma doença terminal.

Nesta quarta-feira (9), em uma sala lotada de jornalistas, o cientista desatou a cantar, e afirmou que estava ansioso por finalmente obter autorização para morrer.

"Eu não quero mais continuar a viver", disse. "Estou feliz por ter a chance amanhã [quinta] de dar fim à minha vida, e agradeço a ajuda dos médicos aqui que tornarão isso possível." No suicídio assistido, os médicos preparam a droga letal, mas é o paciente que deve tomá-la. 

Goodall era um reconhecido ecologista e botânico, pesquisador da Universidade de Edith Cowan, na Austrália, país onde morou desde criança. Em 2016, recebeu a prestigiada medalha Ordem da Austrália. 
Disse ter ter tido uma boa vida â?”até recentemente. "O último ano foi menos satisfatório porque não conseguia fazer as coisas", disse em entrevista à Australian Broadcasting Corporation no mês passado.

"Eu lamento ter chegado a essa idade. Preferiria ser 20 ou 30 anos mais novo." Questionado se tinha tido um feliz aniversário, em abril, respondeu: "Não, eu não estou feliz. Eu quero morrer, e isso não é triste. O triste é ser impedido disso."

Em 2016, a universidade o considerou inapto para continuar seu trabalho como pesquisador e pediu que ele se afastasse, alegando preocupação com sua saúde. Goodall, aos 102, reclamou de "ageism" (preconceito etário) e disse que o episódio o deprimiu. 

A universidade acabou revertendo sua decisão. Ainda assim, a saúde de Goodall continuou se deteriorando. Meses atrás ele caiu em seu apartamento e ficou no chão por dois dias até que a faxineira o encontrasse.

Para ele, é hora de morrer, e o ideal seria fazê-lo onde mora. Na Austrália, porém, só o estado de Victoria legalizou a prática, no ano passado, e a legislação, que entrará em vigor em 2019, só se aplica a pacientes terminais.

O cientista disse esperar que seu caso sirva de exemplo e estimule a legalização do suicídio assistido em outros países.

A Suíça permite o suicídio assistido desde 1942, o que rendeu ao país a fama de estimular o "turismo da morte". Outros países, porém, passaram a criar regulamentações nesse sentido, como Estados Unidos, Bélgica e Holanda.

Em geral, a maioria dos países que preveem esse tipo de prática coloca como condição a existência de uma doença em fase terminal; há casos que pedem prognóstico de vida de seis meses, o que gera polêmicas, já que não há ciência exata nessa definição. 

De acordo com a lei suíça, entretanto, qualquer pessoa com mente sã e que tenha, durante certo período de tempo, expressado um desejo consistente de encerrar sua vida, pode solicitar a chamada morte voluntária assistida. 

A Eternal Spirit, uma das várias fundações da Suíça que ajudam pessoas que querem pôr fim às suas vidas, disse que Goodall passou por duas visitas médicas com profissionais diferentes desde que chegou à cidade há alguns dias. É preciso se certificar, por exemplo, que o solicitante não tem depressão.

A entidade cuida de todo o procedimento por questões fiscais e tributárias. O custo total da morte é de, aproximadamente, 10 mil francos suíços (cerca de R$ 36 mil), mas há opções para quem não tem recursos financeiros. 

Dos 175 suicídios assistidos realizados entre 2012 e 2015, 115 foram em mulheres. A faixa etária predominante é de 60 a 89 anos.

Além da Eternal Spirit, há a LifeCircle, a Dignitas, a Exit --que só atende residentes suíços-- e a Exit Internacional. 

A maioria das fundações suíças pede aos pacientes para beberem pentobarbital sódico, um sedativo eficaz que, em doses fortes o suficiente, faz com que o músculo cardíaco pare de bater. Como a substância é alcalina e queima um pouco quando engolida, a Eternal Spirit optou por infusões intravenosas. 

Um profissional prepara a agulha, mas cabe ao paciente abrir a válvula que permite que a substância de curta duração se misture com uma solução salina e comece a fluir em sua veia. 
Goodall disse que espera que sua morte aconteça por volta do meio-dia de quinta-feira (10) na Suíça. 

Mesmo na Suíça, o assunto divide opiniões. Encontrar médicos que atestassem a decrepitude da saúde de Goodall e que prescrevessem o pentobarbital foi uma tarefa difícil, recusada por uma fundação e depois aceita por outra, também por questões ideológicas. Um caso famoso ajuda no debate internacional. 

"Ao contrário do que parece, a morte assistida por uma organização suíça não é uma opção fácil, especialmente para o estrangeiro", diz a advogada Luciana Dadalto, que acompanha o caso na Basileia.

“Ao contrário do que parece, a morte assistida por uma organização suíça não é uma opção fácil, especialmente para o estrangeiro”, diz a advogada Luciana Dadalto, que acompanhou o caso.

“Há que se respeitar alguns critérios e enfrentar as diferenças de procedimento entre as organizações. Morrer fora de seu país é um ato de desespero e, muitas vezes, de desumanização. É preciso enfrentar outro idioma, outra cultura e, em casos famosos como o de Goodall, a curiosidade da opinião pública.”
“Eu preferiria ter morrido na Austrália, e lamento muito que o país esteja atrás da Suíça”, disse Goodall na quarta.

Questionado se tinha alguma hesitação ou dúvida, o homem de 104 anos disse, um dia antes de morrer: “Não. Nenhuma”.

A eutanásia e o suicídio assistido são proibidos no Brasil. 

Em 2012, o Conselho Federal de Medicina aprovou resolução que reconhece o testamento vital, documento em que a pessoa atesta quais tratamentos não quer se submeter no final de vida em caso de doença terminal.

Na prática, porém, ele é pouco usado nos hospitais. As instituições e os médicos alegam que, por falta de legislação específica, há uma insegurança jurídica. 

Eles temem ser processados por familiares do paciente que, muitas vezes, insistem para que se faça de tudo para salvar a vida do doente, mesmo quando não há mais possibilidade de sobrevida e o paciente não queira mais. E defendem que haja uma lei federal regulamentando isso.

Pacientes e familiares também reclamam de falta de preparo e informação das equipes médicas.

"Ainda há muita dificuldade em cumprir a vontade do paciente porque a cultura brasileira transfere essas decisões para a família ou para a equipe de saúde", diz a advogada Luciana Dadalto.

Ela também diz que ainda é necessário esclarecer para os familiares e pacientes que testamento vital não se assemelha a eutanásia ou o suicídio assistido. "O testamento vital é o documento pelo qual o paciente expressar procedimentos médicos aos quais deseja ou não ser submetido, como ressuscitação, respiração e alimentação artificial. Não pode conter pedido de eutanásia ou de suicídio assistido."

Fonte: FOLHA

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