06 de junho de 2018 às 20:41

Droga que previne HIV pode levar a mais relações sexuais desprotegidas

A introdução de uma droga que reduz em 90% o risco de infecção pelo HIV em duas grandes cidades da Austrália levou a um aumento nas relações sexuais casuais desprotegidas --inclusive entre quem não toma o medicamento. 

A introdução de uma droga que reduz em 90% o risco de infecção pelo HIV em duas grandes cidades da Austrália levou a um aumento nas relações sexuais casuais desprotegidas --inclusive entre quem não toma o medicamento. 

A conclusão é de estudo publicado nesta quarta (6) na revista médica inglesa Lancet HIV. Foram acompanhados cerca de 17 mil homens gays e bissexuais em Sidney e Melbourne, recrutados online ou em locais mais frequentados por esse público. 

A estratégia é indicada para populações que têm maior risco e número de casos de HIV, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans; trabalhadores do sexo e casais sorodiferentes (quando uma pessoa está infectada pelo HIV e a outra não).

O uso da PrEP, oferecida na rede pública de saúde da Austrália desde 2016, cresceu de 2% para 24% entre 2013 e 2017. 

Entre os homens que tomam o medicamento, a proporção que relatou sexo anal desprotegido com parceiros casuais foi de 1% para 16%. 

Já entre os que não tomam a droga preventiva, incluindo tanto quem é HIV negativo como quem não fez testes, a taxa de sexo desprotegido cresceu de 30% para 39%. 

Em aplicativos para busca de parceiros, por exemplo, é comum que homens gays escrevam avisos do tipo "tomo PrEP, não uso camisinha". Mas, mesmo sem tomar o medicamento, muitos usam gírias que indicam que fazem sexo desprotegido. 

Uma das hipóteses para explicar o comportamento é que, com o crescimento do uso da PrEP, até mesmo quem não usa o medicamento acha que o sexo sem camisinha ficou menos arriscado e se sente mais seguro, segundo um dos autores do estudo, o professor Martin Holt, da Universidade de Nova Gales do Sul.

O infectologista brasileiro Caio Rosenthal, do Hospital do Servidor Público Estadual, diz que é muito favorável ao uso da PrEP, mas reconhece que a terapia é uma faca de dois gumes. "As pessoas acham que estão livres para descuidar da prevenção."

As consequências dessa mudança de comportamento ainda não estão claras, diz Holt. É possível que a transmissão do HIV cresça, mas, por enquanto, a Austrália não observou aumento nas infecções por HIV entre homens que fazem sexo com homens após a adoção da PrEP. 

Usar a terapia sem o preservativo pode ainda levar a um aumento de outras infecções sexualmente transmissíveis, como a sífilis, diz Rosenthal. "Toda semana atendo casos novos. E agora tem aparecido também a sífilis neurológica", afirma. Assintomática, esse tipo de sífilis ataca do sistema nervoso central e pode ter consequências neurológicas, como déficit cognitivo."

Além disso, Rosenthal aponta para o surgimento de vírus resistentes ao medicamento. 

Para ele, a mensagem que deve ser passada e reforçada sobretudo entre os jovens que fazem sexo com homens é "faça o teste". "O caminho é iniciar o tratamento o quanto antes e baixar a carga viral a níveis indetectáveis. Assim, a transmissão é interrompida."

No Brasil, a PrEP é oferecida pelo SUS desde 2017. No início do ano, cerca de 2.000 pessoas estavam em tratamento. A expectativa do Ministério da Saúde é que até o final do ano entre 7.000 e 9.000 pessoas estejam usando o medicamento.

A psicóloga Helena Lima, consultora da Unaids (agência da ONU de combate à Aids), afirma que é preciso reforçar o trabalho educativo em torno do uso da PrEP para que as pessoas não achem que o tratamento é "um doce de coco inócuo" e abandonem as outras formas de prevenção.

"Será sempre mais fácil tomar um comprimido do que mudar o comportamento. O tratamento tem efeitos colaterais, exige adesão e pode, sim, criar uma rivalidade com o uso da camisinha." Os efeitos indesejados incluem náusea e dor de cabeça.

Ele diz que as campanhas educativas de prevenção à Aids tendem a não ouvir os jovens, e os eventos sobre o tema "pregam para convertidos". "Para muitos jovens, a mensagem 'use camisinha' tem efeito de 'não use'."

Mas, segundo o infectologista Esper Kallas, professor da USP, é natural que haja redução do uso da camisinha após a introdução da PrEP, e o que importa no final é a diminuição das infecções sexualmente transmissíveis em especial o HIV. "Troco facilmente a redução do uso da camisinha pela redução do HIV."

Dados de San Francisco (EUA) apontam uma redução de 50% de novas infecções e casos de Aids após a PrEP, a ponto de já se falar em chegar a um índice zero de transmissão. "Isso não era sequer sonhado antes da terapia."

Sobre as outras doenças sexualmente transmissíveis, ele diz que todos os estudos apontaram estabilidade ou até diminuição dos casos após a introdução da PrEP. "Você traz esse indivíduo para o serviço de saúde e ele faz o diagnóstico, tratamento e evita de transmitir para os outros."

Kallas afirma que também é esperado que aqueles que busquem a PrEP sejam os que menos usem preservativos.

Em relação às pessoas que deixaram de se proteger mesmo não usando a PrEP, ele acredita que haja uma mescla de fatores. 

"Toda medida que interfere no ato sexual é colocada em segundo plano. É por isso que nem abstinência nem camisinha funcionaram como principal medida de proteção. Pode funcionar no individual, mas não no coletivo."

Para Mario Scheffer, professor de saúde preventiva da USP, demonizar a PrEP no momento de fracasso da prevenção tradicional é o pior caminho. "Não vamos jogar o bebê fora junto com a água do banho. PrEP não é panaceia mas pode ser uma grande ferramenta a mais de prevenção." 

Segundo Rosenthal, as atuais campanhas públicas não atingem os jovens 15 a 19 anos, faixa etária em que a taxa de infecção de HIV mais cresce. 

"Eles não leem jornal, não veem canal aberto. É preciso repensar as campanhas com o uso de meios de digitais."

Fonte: FOLHA

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